Alguém consegue partilhar o texto?
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Aos 24 anos, Miguel Peliteiro passou três semanas em coma na sequência de um acidente numa ciclovia na Póvoa de Varzim. A reabilitação continua — está internado, sem conseguir falar ao telefone, a aprender a escrever com a mão esquerda. Um depoimento na primeira pessoa, recolhido por email, de alguém que apela: “Nem todas as cidades são bike-friendly ou têm medidas de direitos do ciclista.”
Rui Miguel Godinho
9 de Setembro de 2020, 8:06
DR
“Foi no dia 10 de Maio de 2020. Estudando em Barcelona desde 2014, regressei a casa dos meus pais, na Póvoa de Varzim, para fazer cá o isolamento por causa da covid-19. A data era muito desejada por mim e pelos amigos que me acompanharam, porque finalmente íamos juntos enfrentar a ciclovia que liga a Póvoa de Varzim a Vila Nova de Famalicão, um desafio de mais de 50 quilómetros que planeávamos fazer em grupo.
O dia estava soalheiro e sem vento, bom para os nossos planos. Enchemos os cantis de água, colocámos os capacetes e juntámo-nos numa bomba de gasolina para o check-up dos pneus. Depois, zarpámos.
A ciclovia estava bastante frequentada, devido ao desporto casual em época de covid-19. Com esforço, lá atingimos a primeira meta — a casa da minha tia — para reabastecer energias antes de voltarmos. No regresso, os meus colegas acabaram por ir ficando para trás, cada um ia no seu ritmo. Eu encabeçava a equipa e, calculando que os meus companheiros estariam bem atrás, parei na Igreja Românica de Rates para tirar uma fotografia. A partir daí, uma vez em Laundos, tudo o que sei foi-me contado.
Segundo a Guarda Nacional Republicana, fui vítima de um atropelamento e fuga, com omissão de auxílio em acidente de viação, ofensas à integridade física qualificada e falta de habilitação legal para a condução. Alegadamente, estava desperto aquando da chegada das pessoas que me assistiram uns 15 minutos após o acidente, e dos meus amigos e das viaturas de emergência que chegaram depois — a quem agradeço com a vida, pois sem eles já não a teria.
Três meses volvidos, acho que ainda é precoce avaliar os danos permanentes. Ainda assim, já ninguém me livra de traumatismo cranioencefálico com derrame cerebral, deslizamento vertebral e fractura vertical de coluna, bacia e úmero estilhaçados, um braço direito amputado — posteriormente reimplantado, embora paralisado —, entre outras coisas, e de todo o trauma físico e psicológico associado. Isto fez com que ficasse absolutamente dependente, limitando todo o tipo de actividade básica da vida diária num abrir e fechar de olhos.
Acordar de um coma de três semanas fez-me experimentar coisas que nunca imaginei que viesse a descobrir. Houve uma altura bastante desconfortável quando estava a recuperar os sentidos. O acordar não se faz num estalar de dedos, como nos filmes. Há uma distorção da realidade, uma dualidade entre sonho e realidade que é difícil de perceber. Não tenho dúvidas de que absorvi uns quantos sinais do que realmente se passava à minha volta. Sendo médico, o meu conhecimento só deu asas a que estes delírios se acentuassem. Juntemos um episódio de Black Mirror com um livro do Asimov e alguns inputs exteriores recebidos pelos olhos sempre abertos e pelos ouvidos atentos: aí têm a mixórdia que foi o despertar.
Acabei, então, por acordar ao fim de três semanas numa cama dos cuidados intensivos (CI), inicialmente bastante confuso. Os estímulos começaram a chegar-me de forma consciente através de uma primeira visita dos meus pais. Lembro-me de ouvir a notícia da conclusão do meu curso de Medicina e do descrédito que inicialmente lhe dei. Não foi de todo o momento da graduação, o culminar de seis anos de trabalho, com que sempre tinha sonhado. Ao mesmo tempo, tinha sido publicado o primeiro trabalho científico em que participei, mas só um mês mais tarde cheguei a essa conclusão. A vida continuou com normalidade, imagino. Quem parou — ou foi parado — no tempo fui eu.
Miguel Sampaio Peliteiro tem 24 anos, é natural da Póvoa de Varzim e é médico. O seu testemunho foi recolhido a partir de vários e-mails.
Acordado e desperto, as coisas nunca foram fáceis. De início, passei três semanas em coma, e depois outra ainda nos CI, já desperto. Seguiu-se um mês duro na enfermaria de cirurgia plástica. Esse mês foi de bastante autoconhecimento face à minha nova “identidade”, a construção do Miguel renascido pós-acidente, com tudo o que isso inclui. Nunca tinha pensado viver com limitações físicas uma vez que sempre fui bastante activo. Agora, tenho uma bacia e braço feitos de metal e parafusos. Queria ser cirurgião, o que será impossível dada a incapacidade motora e sensitiva do braço direito. Não é fácil, mas a situação assim o requer.
Foto
Miguel Peliteiro à entrada para a câmara hiperbárica DR
Um embate, um segundo em toda a minha vida, levar-me-á a uma profunda reestruturação dos 50 ou 60 anos de vida que me restam, se é que restam. É também nesse sentido que deu entrada o processo judicial nos tribunais. Quanto vale uma vida? Quanto valem estes últimos meses e os outros que ainda estão por vir? Quanto custa um sonho? Não falo só em possíveis rendimentos futuros, isso seria redutor. Falo em todo o trauma que este episódio teve para mim e para os mais próximos, na limitação de qualidade de vida e bem-estar, desde os tratamentos à inevitável restrição da escolha da especialidade médica.
Só depois de muito reflectir, de muito chorar, de muita frustração é que cheguei à conclusão de que o mais profundo neste mundo continua comigo. A meu lado, como antes: família, namorada e amigos. Ser negativo não serve mesmo de nada. Há sempre um lado bom em nós, mesmo que projectado em quem nos rodeia, e é por isso que temos de lutar. Não há vidas melhores ou mais valiosas.
Agora, estou a ponto de terminar o meu segundo internamento de um mês e meio na enfermaria de cirurgia plástica — depois de um primeiro internamento de dois meses e uma breve passagem pelo Centro de Reabilitação do Norte — por causa de uma bactéria que quase me custou o braço. Depois de dois meses acamado, voltei a caminhar e a pedalar, estou a aprender a escrever com a mão esquerda e lentamente recomeço o estudo para o exame de especialidade. Preparei o exame todos os dias desde Setembro de 2019, e até isso foi pelos ares, adiando a minha apresentação a exame para o ano que vem — ou assim espero.
Certo é que todo este episódio está longe de terminar. É só o início de uma série de cuidados médicos a que serei submetido. No dia 27 de Agosto, iniciei uma nova etapa, à espera de milagres numa câmara hiperbárica. Nunca desistirei de lutar pelo mundo que quero, pelas causas que me movem ou pelos valores e honra que regem a minha vida e relações com outros. Infelizmente, acabo por ser uma agulha num palheiro de casos que teimam em ser empurrados para o esquecimento. Só no meu horário de fisioterapia do Hospital de São João há outro caso de atropelamento de uma jovem rapariga, a Andreia, que foi bastante noticiado também. Quantos há por aí? Demasiados.
Por triste que pareça, nem todas as cidades são bike-friendly ou têm medidas de direitos do ciclista. É inequívoco que as sociedades mais avançadas visam implementar o uso de bicicletas; note-se o papel preponderante que têm os ciclistas nos países nórdicos até à Holanda e Alemanha. Eu próprio andava de bicicleta em Barcelona para me deslocar entre pontos da cidade.
Há medidas que me parecem de extrema importância — e urgência, no caso do nosso país. Em Portugal, ainda há poucos ciclistas, seja rumo ao trabalho ou por lazer. Ao passo que vemos as senhoras de idade a pedalar em qualquer cidade italiana, aqui as pessoas têm medo. Pudera! Veja-se o meu caso: numa ciclovia, acreditando estar em total segurança, sou atropelado por um condutor que não respeita uma passadeira sinalizada. São perto de sete mil atropelamentos e uma centena de mortos, muitos eram ciclistas, como é o caso da atleta de basquetebol de 16 anos. É por isso que, assim que atingir estabilidade clínica, vou tentar difundir a minha mensagem no sentido da prevenção rodoviária, de forma séria e comprometida.
Estou ciente de que o que sugiro para evitar estes incidentes não é nada de novo, até porque não sou urbanista nem força de autoridade. Ainda assim, devia haver mais justiça e responsabilização nos casos de sinistralidade, bem como educação, sensibilização, fiscalização e penalização que visem a segurança rodoviária. Os limites de velocidade deveriam ser mais apertados — fui projectado mais de 25 metros e o limite de velocidade era de 50 quilómetros por hora. E deviam existir mais barreiras físicas, como lombas, e semáforos, que obriguem à redução de velocidade.
Foto
Miguel teve o seu braço amputado e posteriormente reimplantado DR
Também se deviam criar boas ciclovias ou vias próprias para circulação exclusiva de bicicletas, devidamente equipadas com dispositivos de segurança. Talvez só quando tudo isto se cumprir é que o povo português poderá usufruir em pleno — sem uma falsa sensação de segurança — das ciclovias e das bicicletas que produz, sendo o maior produtor de bicicletas europeu segundo o Eurostat.
Após esta fase de recuperação, pretendo também ajudar, a nível pessoal, todas as pessoas que me procurarem alcançar, por aqui ou via redes sociais, no sentido de dar um ombro amigo, de alguém que já passou por tudo isto. Nem que seja para motivar a procura por um psicólogo. A mente ainda é muito menorizada na sociedade, mesmo em hospitais, ainda que seja um ponto fulcral em qualquer reabilitação, como foi — ou é — na minha.
Tenho notado também que algumas pessoas esperam que eu seja capaz de me afastar de clichés e exale sabedoria própria de quem já viu a morte de frente. E se eu disser que a virtude da vida é mesmo colher o dia, viver o presente conscientemente, aproveitar as pequenas coisas e deixar de lado frivolidades? Aí desprezarão e dirão ‘oh, isso já eu sei’. Mas é que eu acho mesmo que é isso. Aliás, num planeta que viu Aristóteles, Descartes, entre outros, porque haveria de ser eu, aos 24 anos, a decifrar o sentido da vida?”
Texto editado por Amanda Ribeiro
Obrigado Carlos.